Volume I
A caminhada interior
Volume I
TENIR é uma travessia interior. Um caminho de silêncio, de queda, de voltar a ficar de pé e de luz. Este primeiro volume abre a caminhada.
Certas presenças nos ensinam a olhar antes mesmo de falar.
Este livro não começa.
Ele retoma.Em algum lugar antes destas páginas,
uma caminhada já aconteceu.Sem nome, talvez.
Sem testemunha também.Talvez algumas vidas façam isso.A caminhada não começa aqui.
Ela continua.
Existem seres
que atravessam uma vida inteira
sem nunca aprender a olhar.Passam de um dia ao outro
como se atravessa um lugar provisório.Depressa.
Sem atenção.Depois existe, às vezes, um instante mais calmo.Algo ínfimo.Uma luz numa janela.
Um cansaço entrevisto num rosto.
Uma árvore que permaneceu de pé por muito tempo.
Uma presença que não procura nada.O mundo parece menos distante.A infância talvez comece ali.Não na idade.No modo de receber o que existe
antes de querer possuí-lo.Para ficar um momento junto do que ainda se mantém.
Primeira escuta
Neraël não é um nome escolhido.
É um estado.Ele designa aquele que percebe antes de compreender,
Que sente antes de saber,
Que escuta antes de nomear.Neraël é a primeira postura:
A do ser ainda sem papel,
Mas já atento.Ele não age.
Ele se mantém.Neraël é aquele que recebe
O mundo tal como é,
Antes de qualquer decisão.
Certas coisas
ainda não se distinguem.Não têm forma.
Nem direção.
Nem mesmo nome.Elas se mantêm.Não para vir a ser.Apenas para durar
o bastante
para que um dia
algo comece.
Primeira escuta
O caminho passava atrás da casa.
Pouca gente ainda o percorria.
A grama havia retomado parte do rastro.Neraël ia até lá.
Não saberia dizer por quê.Nada ali acontecia jamais.
Mesmo assim, quando seguia aquela trilha, algo se calava dentro dele.O vento passava entre os galhos.
Às vezes caía uma folha.
Às vezes nada se movia.Então ele parava.As outras crianças seguiam seu caminho.
Ele olhava.Uma gota d’água suspensa num caule.
Uma formiga que sumia sob uma pedra.
A luz do entardecer na casca de um velho tronco.Coisas tão pequenas que os outros passavam diante delas sem vê-las.Ficava ali até o sol baixar.
Depois voltava para casa.Sem história para contar.
Sem descoberta para anunciar.E algo voltava com ele.
Lei ICertas coisas se tornam visíveis
quando se deixa de avançar depressa demais.
O que ele queria mostrar
Certa tarde, ele parou diante de um velho muro coberto de musgo.
A chuva havia cessado.
A água ainda descia entre as pedras.
Ele olhou as gotas seguirem os mesmos caminhos.Quando voltou para casa, tentou falar disso.
Disseram-lhe que era apenas água.
Ele concordou com a cabeça.
Claro que era água.
Mas não era isso que ele quisera mostrar.Nos dias seguintes, notou um galho curvado pelo vento.
Uma sombra numa trilha.
Um pássaro que hesitava antes da tempestade.Quando falava disso, as respostas voltavam para as coisas.
Então guardou algumas observações para si.Não por medo.
Por economia.Ele olhou de novo.Como antes.
Lei IIO que não se diz
nem sempre é o que não se percebeu.
A Paciência
Neraël voltou ao mesmo lugar.Às vezes nada acontecia.
O vento atravessava os galhos.
A luz mudava sobre as pedras.
Depois o dia terminava.
Então ele voltava para casa.Outras vezes, uma mesma coisa voltava.
Uma flor que continuava a se abrir.
Uma teia de aranha que se tornara visível sob o orvalho.
Um galho que inclinava seu curso em direção à luz.Nada acontecia de uma só vez.Certas coisas não se escondem.
Elas levam o seu tempo.Ele olhava.
Depois voltava.E sem saber quando aquilo havia começado,
algo ficava claro.
Lei IIIVoltar acaba por revelar
o que um único olhar não mostra.
O Desejo de partir
Por um tempo, Neraël continuou voltando.Então, certa manhã, não veio.Nada o impedia.
O céu estava claro.
O caminho estava aberto.Mesmo assim, caminhou para outro lugar.
Sem razão precisa.
Como se algo já procurasse outra direção.Seguiu uma trilha que nunca havia percorrido.
As árvores mudaram.
As pedras mudaram.
Até o vento parecia diferente.Por algumas horas, isso lhe bastou.Então algo faltou.Não um lugar.
Não um hábito.
Outra coisa.Uma presença discreta que ele nunca havia notado enquanto ela estava ali.Ao cair da noite, retomou o caminho que conhecia.Nada havia mudado.
Ainda assim, tudo lhe pareceu mais vivo.
Lei IVO que falta
revela o que alimentava.
O que não responde
Neraël seguiu o caminho por vários dias.Atravessou bosques que não conhecia.Clareiras.
Vales.
Lugares sem nome.Às vezes parava.
Não para observar.
Para escutar.Então ficava imóvel.
Por alguns instantes.Mas nada vinha.
Nenhum sinal.
Nenhuma voz.
Nenhuma revelação.Apenas o vento nos galhos.
O movimento das ervas.
A passagem das nuvens.Depois retomava a caminhada.
Outros lugares apareciam.
Outros silêncios.Podia ficar ali.
Sem receber.
Sem compreender.
Sem concluir.E, ainda assim, partir de novo apaziguado.
Lei VTudo o que importa
não responde.
O comum
As nuvens passavam sobre as colinas.
Depois se apagavam.Neraël as olhava.O vento continuava sendo o vento.
A luz continuava sendo a luz.
O canto distante de um pássaro atravessava o vale, depois se perdia no ar.Nada procurava se tornar outra coisa.Naquele dia, ele parou no alto.Diante dele, o vale se estendia até as linhas azuis do horizonte.
Um riacho seguia seu curso entre as ervas.
Um caminho desaparecia atrás de uma dobra do terreno.Um muro de pedras secas atravessava a encosta.
Pedra após pedra.
Sem pressa.
Sem atraso.Neraël se aproximou.
Pousou a mão sobre a pedra mais próxima.Ainda guardava o calor do dia.O vento passou entre as ervas.
A água prosseguiu seu curso.
Uma sombra atravessou a encosta.
Depois desapareceu.Neraël retirou a mão.
Retomou a caminhada.
Lei VIO que basta não se anuncia.
O ritmo
O caminho descia entre as ervas altas.
O vento passava sobre elas.
Elas se curvavam.
Depois se erguiam.Neraël caminhou.
Olhava menos para trás.
E menos para a frente.Seus passos se sucediam no caminho.Às vezes o vento amainava.
As ervas ficavam imóveis.Depois o vento voltava.
Elas se curvavam.
Depois se erguiam.Ele continuou a avançar.Não mais contra o tempo.
Não mais com ele.
Dentro.Ao cair da noite, as colinas escureceram.
Neraël prosseguiu seu caminho.
No mesmo passo.
Lei VIICada coisa que dura bate em sua medida.
As vozes baixas
Algumas pessoas falavam como se temessem acordar alguma coisa.
Mesmo num cômodo vazio.Sua voz ficava perto delas.
Como uma luz baixa numa casa ao anoitecer.A criança as escutava por mais tempo que os outros.Não pelas palavras.
Pelos silêncios entre as frases.Outras entravam em toda parte ao mesmo tempo.
Cortavam os gestos.
Deslocavam a calma.
Fechavam os cômodos.Então, às vezes, ele preferia ficar junto de quem falava pouco.Uma mulher idosa que olhava longamente antes de responder.
Um homem que tirava o chapéu antes de entrar.Ele não sabia por que aquelas presenças lhe pareciam mais próximas.Mas elas não tomavam nada.
Lei VIIICertas vozes
abrem mais espaço
ao se calar.
O silêncio depois da chuva
Depois de certas chuvas,
o mundo parecia esperar.Os caminhos ficavam mais escuros.
As árvores retinham a água por mais tempo.
As pedras ainda luziam na sombra.A criança gostava de caminhar nesse momento.Antes do retorno das vozes.Até os pássaros
deixavam espaço entre seus cantos.Acontecia de nenhum ruído
atravessar um lugar inteiro.Nem um sopro de vento.Nem uma porta.Nem outro passo sobre a terra úmida.
Lei IXExistem silêncios
em que o mundo
volta a ser inteiro.
As casas que escutam
Certas casas
mudavam com as estações.Não só por fora.
Por dentro também.A criança percebia isso já na entrada.Um cômodo aberto no verão
já não respirava do mesmo jeito no inverno.As tábuas trabalhavam.
As paredes retinham certos sons.Ao anoitecer,
algumas casas pareciam escutar.Ali se baixava a voz.Uma xícara pousada sobre uma mesa
ressoava.Uma cadeira deslocada
podia bastar
para perturbar o silêncio de um cômodo.Então se esperava antes de falar.
Lei XCertos lugares
escutam
o que viveu neles.
Os Gestos que Acalmam
Certas pessoas
entravam num cômodo
sem sobressaltá-lo.Não ocupavam todo o espaço.Abriam uma porta.
Esperavam um instante.
Olhavam antes de avançar.Até as mãos delas
pareciam conhecer o silêncio das coisas.Uma xícara pousada de novo.
Um casaco dobrado sem barulho.
Uma janela fechada antes da noite.Então os lugares
mudavam com elas.Os objetos voltavam ao seu lugar.Davam às coisas
o tempo de existir.
Lei XICertas mãos
tornam o silêncio
vivo.
Os Lugares Onde Se Fica
Existiam lugares
onde as pessoas desaceleravam.Mesmo sem motivo.Uma porteira à beira de um campo.
Um velho banco perto de um muro.
Um caminho que descia em direção à água.As conversas mudavam ali.As vozes perdiam alguma coisa.O cansaço também.Certas pessoas
ficavam em silêncio.Como se o lugar
retivesse uma parte do barulho que elas carregavam.A criança observava aquilo sem dizê-lo.Nem felizes.Nem melhores.Mais próximas
do que eram
quando deixavam de lutar.Então, às vezes, voltava àqueles lugares.Sem procurar nada.Ele se sentava.Escutava o vento nas ervas.A madeira que trabalhava nas cercas.
A água contra as pedras.O mundo respirava ao seu redor.
Lei XIICertos lugares
aliviam os seres
sem lhes pedir nada.
Os Lugares Cansados
Certas casas
guardavam uma tensão em suas paredes.Mesmo vazias.Ali se falava mais depressa.
Os gestos ficavam mais secos.
Os silêncios não se mantinham por muito tempo.Alguma coisa
parecia esperar sempre uma ruptura.Uma porta que bate.
Uma voz que se eleva.
Um objeto deslocado bruscamente demais.Então os corpos
ficavam menos tranquilos.Mesmo sentados.Mesmo imóveis.Ele sentia
que retinham outra coisa.Não a paz.Alguma coisa desgastada.Como se gestos demais,
palavras demais,
tivessem cansado o próprio ar.Partia de novo.E quando reencontrava um caminho tranquilo,
sua respiração mudava.O vento retomava o seu lugar.As árvores também.E o mundo
deixava de se contrair ao redor dele.
Lei XIIICertos lugares
esgotam os seres
antes mesmo de falarem.
As Palavras que Cansam
Certas palavras
deixavam os lugares mais pesados depois delas.A criança percebia isso às vezes
nas cozinhas silenciosas,
nas refeições longas demais,
nos cômodos onde ninguém olhava para os outros.As palavras continuavam flutuando
mesmo depois do fim das conversas.Nem todas.Aquelas que forçavam.
Aquelas que queriam convencer.
Aquelas que enchiam tudo.Depois delas,
os silêncios já não repousavam.Ficavam cautelosos.Então os gestos também mudavam.Arrumava-se mais depressa.
Falava-se menos livremente.
Os olhares evitavam certos lugares.Mas ele sentia
que algumas vozes
tomavam mais do que deixavam.E outras faziam o contrário.Algumas palavras calmas
podiam tornar um cômodo respirável de novo.Como uma janela aberta.Ele reconhecia as vozes
pelo que faziam
ao silêncio em volta delas.
Lei XIVCertas palavras
tomam
mais do que dão.
O que Fica depois das Vozes
Depois de certas partidas,
os lugares mudavam.Não por causa dos objetos deixados para trás.Outra coisa permanecia.Um modo de abrir uma porta.
De pousar uma xícara.
De atravessar um cômodo sem sobressaltá-lo.A criança percebia isso
em certas casas que tinham ficado mais calmas.Às vezes,
uma ausência tornava os gestos mais visíveis.O silêncio retomava a forma deles.Então certas cozinhas
pareciam esperar alguém.Certas janelas
guardavam uma luz particular ao anoitecer.E alguns caminhos
pareciam desacelerar em torno de uma lembrança invisível.Apenas um rastro.Como quando o vento continua por um instante
nos galhos
depois de ter atravessado as árvores.Alguma coisa deles
continua respirando ali.
Lei XVCertos seres
permanecem nos lugares
pelo modo como os habitaram.